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Level Up do júnior a Especialista
Gestão de Pessoas

Level Up do júnior a Especialista

Tem uma galera no mercado que leva sua carreira em design igual aos jogos de RPG: você passa alguns anos derrotando o mesmo javali no mapa inicial, junta pontos de experiência por tempo de tela e, de repente, pling!, virou sênior.

Sinto desapontar, camarada, mas tempo de casa sem atrito mental não é senioridade, é apenas um ano de experiência repetido cinco vezes. Bora entender alguns lances sobre carreira.

Se a gente olhar para o Modelo de Aquisição de Habilidades de Dreyfus (lei mais sobre isso em A Five-Stage Model of the Mental Activities Involved in Directed Skill Acquisition), fica evidente por que tanta gente trava na transição. O modelo propõe que quem está começando depende obrigatoriamente de regras rígidas e receitas prontas para não entrar em colapso. Deixa eu te explicar: conforme você ganha maturidade, a “cartilha” (como os avós falavam) deixa de servir e a intuição analítica entra no lugar para lidar com o contexto caótico do mundo real.

O Jared Spool (fundador da UIE e uma das vozes mais lúcidas do design moderno em ensaios) nos trás uma linha de pensamento no qual a maturidade de quem projeta não é medida pelo número de telas entregues, mas pela capacidade de influenciar decisões de negócio muito antes de qualquer protótipo existir. Aqui mora a maior dica que eu posso te dar.

Na prática das equipes que liderei ou comigo mesmo alinhando e alinhando no dia dia com meus pares, percebi que essa “escadinha de maturidade” se divide de um jeito bem claro e continuo colocando analogias pra te ajudar a entender melhor.

O Júnior (O Padawan no modo tutorial): É o profissional focado no operacional da ferramenta. Precisa da receita de bolo na mão (o famigerado duplo diamante de cartilha) e quer saber a regra exata de auto-layout e tokens para não se perder. Ele pergunta: “Como é que eu desenho isso?”

O Pleno (O protagonista no meio da jornada): Já domina o ferramental, roda discovery sem supervisão e sabe aplicar dinâmicas de ponta a ponta. O calcanhar de Aquiles aqui ainda é o apego emocional: ele se apaixona pela própria solução e sofre para desapegar. Ele pergunta: “Qual metodologia eu uso para validar a minha ideia?”

O Sênior (O sobrevivente do apocalipse zumbi): Não entra em pânico com ambiguidade nem se emociona com tela bonita. Se os dados e os testes apontarem que a hipótese é furada, ele deleta semanas de protótipo sem piscar e volta pra tela em branco. Entende que o melhor design muitas vezes é a tela que nem precisa ser construída. Ele pergunta: “Qual é o problema real do negócio e do público-alvo que estamos tentando resolver?”

O Especialista (O Mestre dos Magos nos bastidores): Quase não gasta tempo empurrando pixel. Ele atua na fronteira onde o design encosta na viabilidade técnica da Engenharia, na governança da esteira e nos modelos de receita dos Product Owners. Ele traduz restrições complexas de tecnologia e compliance em arquitetura sólida, evitando que a squad construa castelos no ar. Ele pergunta: “Qual é o trade-off financeiro, técnico e operacional dessa decisão arquitetural?”

Entendeu e se identificou? Manja assim, subir de nível na carreira não é sobre ganhar um crachá novo e poder dar pitaco no trabalho dos outros. É sobre aumentar sua tolerância ao caos e assumir a responsabilidade pelos resultados dos OKRs ou KPIs da empresa.

Antes de querer o próximo cargo, dá uma olhada pra onde você está mirando. Você ainda está preocupado em qual atalho usar no teclado ou já senta na mesa para discutir se aquela feature realmente paga o salário do time no fim do mês?

Referências:

Stuart E. Dreyfus & Hubert L. Dreyfus: A Five-Stage Model of the Mental Activities Involved in Directed Skill Acquisition (Universidade da Califórnia, Berkeley). Modelo seminal sobre a transição do novato (baseado em regras) ao especialista (baseado em contexto e intuição situacional).

Jared Spool: The Evolution of Design Teams e publicações da UIE / Center Centre sobre maturidade em design e impacto estratégico nas organizações.