Se você cresceu nos anos 90 ou 2000, com certeza ouviu falar do Blade? O cara era meio humano e meio vampiro. Um “híbrido” que andava no sol e estava no meio de uma guerra silenciosa nas sombras. Ele precisava entender o lado dos humanos para não perder o propósito e também dominar a brutalidade dos vampiros para sobreviver.
Trabalhar com produtos digitais no dia a dia é quase a mesma trincheira. De um lado, você tem a Engenharia armada até os dentes contra qualquer ameaça de débito técnico. Do outro, o Product Owner (PO) sedento por sangue, cobrando entrega para ontem, afim de bater metas para a diretoria. No meio do tiroteio, o Designer sonha com um fluxo perfeito de cinema, mas que ninguém tem capacidade de construir na sprint atual.
Cara, se você acha que esse conflito é um “defeito” no seu time, sinto em lhe dizer… esse atrito é a coisa mais natural do mundo quando cada um puxa a corda para o seu próprio lado.
Tava aqui pesquisando a respeito de sincronia para os times e descobri um livro da Teresa Torres, chamado Continuous Discovery Habits: Discover Products that Create Customer Value and Business Value. Esse, eu não li, mas encontrei um resumo no qual ela defende que a maior parte do retrabalho e da frustração em empresas de tecnologia nasce da ilusão de que produto se faz em fila indiana nos famigerados waterfall/topdown.
A Tereza apresenta a ideia de Product Trio (a tríade inseparável de Produto, Design e Engenharia). Onde os três papéis precisam participar ativamente das conversas com os clientes e da definição dos caminhos a cada discovery. Se uma decisão de design é tomada sem o desenvolvedor na sala para avaliar a viabilidade técnica, ou sem o PO para checar o impacto no modelo de negócio, há muito risco de se construir algo inútil ou capenga.
Eu queria muito poder dar nomes aos bois, mas respeitando a privacidade dos envolvidos, nas equipes que liderei e nas squads onde atuei, cansei de ver o mesmo tiroteio se repetir por causa de vícios organizacionais, falta de foco nos clientes ou até falta de espirito de equipe.
Essa desconexão fica evidente numa expressão que certa vez me disseram: “muro de Berlim do Figma”: pensa assim, um designer passa semanas desenhando dezenas de telas isoladamente (algo feito hoje em questão de dias com IA), mas fica indignado no planejamento da sprint, quando descobre que a arquitetura do banco não suporta a solução. Isso acontece sempre que a Engenharia fica de fora dos discovery, a culpa do retrabalho e do veto técnico não é do desenvolvedor, mas sim de um processo isolado que ignora o alinhamento prévio.
Outro lance bacana de falar é sobre a fábrica de pastel do PO. Todos deveriam entender que o PO vive sob pressão de executivos, mas alguns focam exclusivamente na esteira de entrega, transformando a squad em uma linha de montagem de features. O perigo aqui mora em esquecer de medir “se aquele botão” realmente trouxe receita ou se só acumulou código legado para a Engenharia limpar no ano que vem.
Um último exemplo: A conversa antes do card no Jira. O papel de quem lidera a esteira não é marcar reunião para dar palestrinha, mas garantir rituais práticos de alinhamento prévio (Lean Inception, refinamentos, “arquitetar” antes de construir…). Nenhuma tela do Figma deveria chegar na mão do desenvolvedor sem que ele já tenha dado o sinal verde de viabilidade técnica e sem que o PO tenha cravado a regra de negócio. Aqui inclusive as IAs tem forçado a barra e mudando muito os processos, Já vi inclusive “engenheiro de prompt” atuando como tríade, mas vocês ainda não estão preparados para essa discussão…
Pensa assim, que ao liderar essa tríade tradicional, não é necessário bancar um super-herói, mas às vezes o super poder surge em ser um “negociador pragmático”, que faz a equipe focar no inimigo em comum. Puxando pro meu lado do design, o foco não deve ser defender o capricho estético do layout a qualquer custo, mas garantir que a solução final gere valor real para o cliente, sem queimar a esteira técnica e sem sabotar a saúde financeira da empresa.
Olha para a sua squad na próxima segunda-feira e me responde com sinceridade: vocês estão jogando juntos para derrotar o chefão da fase (o problema do cliente) ou estão gastando toda a munição em fogo amigo no meio da trincheira?
Referência que eu trouxe aqui:
Teresa Torres: Continuous Discovery Habits: Discover Products that Create Customer Value and Business Value. O livro me parece interessante sobre a atuação da Product Trio (Design, Produto e Engenharia) na mitigação contínua de riscos de valor, usabilidade, viabilidade técnica e viabilidade de negócio.
